Me Chame Pelo Seu Nome

Existem momentos em nossa existência que estamos na “fase de descobrimento”. Seja no lado profissional ou até mesmo no íntimo. E especialmente na transição entre a adolescência e a vida adulta quando temos sentimentos aflorados, desde o início da puberdade até as paixonites da escola. E Me Chame Pelo Seu Nome é uma carta aberta ao desejo e as descobertas de um jovem adulto.

Em algum lugar no norte da Itália, vemos Elio (Timothée Chalamet), de 17 anos, filho único de uma família norte-americana, com ascendência italiana e francesa. No verão, sua rotina é resumida a ler livros, transcrever música erudita, nadar no rio local e sair à noite. Os pais de Elio (Michael Stuhlbarg e Amira Casar) possuem uma visão bastante cultural em relação à vida e fazem questão de passar essa educação ao menino. O pai de Elio, um professor universitário, recebe a visita de um estudante de Arqueologia chamado Oliver (Armie Hammer) para auxiliá-lo durante seis semanas em uma pesquisa envolvendo a arte greco-romana.

Oliver é um homem com uma beleza bastante exótica, que acaba conquistando todos ao redor dele não só por esse detalhe, mas também pelo seu carisma e inteligência cultural. No começo, Elio e Oliver passam pela cordialidade de se conhecerem há pouco tempo, depois pela antipatia até chegarem a uma relação intensa e de descobertas tanto para Elio quanto para Oliver.

Baseado no romance do autor egípcio André Aciman, o roteiro escrito por James Ivory (diretor e roteirista de Vestígios do Dia) retrata um ambiente familiar livre de algum tipo de tabu e bastante rica, culturalmente falando. Elio passa por um momento de confusão não só pelos seus sentimentos por Oliver, mas também por estar se descobrindo sexualmente e em nenhum momento é julgado por isso.

A direção de Luca Guadagnino é sensível ao mostrar a descoberta do amor e passar ao espectador que Elio e Oliver podem representar qualquer história, independente do gênero. Guadagnino transpõe a sensualidade em pequenos detalhes, como a arte do epicurismo é retratada e também como sua câmera destaca a pele, literalmente. O ritmo é lento na medida em que os personagens principais estão se descobrindo apaixonados.

As atuações também seguem toda essa sensibilidade que a história possui. Timothée Chalamet transmite tanta verdade a seu Elio, um adolescente esperto, mas ao mesmo tempo ansioso e inseguro com seus sentimentos. A sua química com Armie Hammer é bem desenvolvida. Hammer também está ótimo: seu Oliver começa o filme bastante confiante, mas também mostra sensibilidade que estava escondida na aparência sedutora. Já Michael Stulhbarg tem uma marcante presença na tela como o pai de Elio, Mr. Perlman.

Me Chame Pelo Seu Nome é um retrato sobre os conflitos sentimentais que passamos ao longo de nossa existência e de como um primeiro amor pode balançar a vida de qualquer pessoa, independente da sexualidade, nacionalidade e até classe social. Também é uma obra que cria reflexões sobre as relações humanas em meio aos contornos artísticos e naturais.

★ ★ ★ ★ ★

Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Name, 2017)
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory (baseado no livro escrito por André Aciman)
Elenco: Timothée Chalamet, Armie Hammer, Michael Stuhlbarg,  Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo, Antonio Rimoldi, André Aciman, Peter Spears

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Os Melhores Pôsteres de 2017

Nossa seleção dos melhores pôsteres de 2017 apresenta filmes de gêneros distintos, mas com um propósito em comum: atrair ainda mais a atenção para potenciais espectadores. Confira nossa seleção abaixo:

Ping Pong: Entre Irmãs, Free Fire: O Tiroteio, Newness e O Espaço Entre Nós

Entre Irmãs (idem, 2017, de Breno Silveira)

Entre Irmãs ganhou uma sobrevida na televisão após uma passagem quase despercebida no cinema. Sua narrativa é digna de produções épicas e clássicas, com uma reconstituição de época bastante caprichosa (o sertão é poético, apesar de todo o sentimento de sofrência) e a direção de Breno Silveira (de 2 Filhos de Francisco) e tem uma mão sensível em transitar dois mundos e atitudes distintas que pairam sobre suas protagonistas, as irmãs Emília e Luzia (interpretadas com doçura e intensidade pelas atrizes Marjorie Estiano e Nanda Costa). Na televisão, o formato funcionou bem. ★ ★ ★

Free Fire: O Tiroteio (Free Fire, 2016, de Ben Wheatley)

Não espere grandes reflexões em Free Fire: O Tiroteio, dirigido pelo britânico Ben Wheatley, que antes de partir para os filmes, era conhecido por dirigir episódios de séries como Doctor Who. Aqui, Wheatley reúne elementos que lembram Quentin Tarantino em começo de carreira, com o humor negro e a violência gratuita. É acertada a escolha de um galpão abandonado como cenário, mas na questão de história, não se sabe muito bem as motivações de alguns personagens e do porque alguns deles resolveram participar da bagunça. O trabalho sonoro é um show à parte, assim como o elenco masculino composto por Sharlto Copley (impagável), Sam Riley, Armie Hammer e Cillian Murphy. Já Brie Larson, a única mulher do grupo, é o elo mais fraco: em muitos momentos, parecia deslocada em cena. ★ ★ ★

Newness (idem, 2017, de Drake Doremus)

Em tempos de redes sociais, as relações humanas ficaram cada vez mais dinâmicas – e também distantes. Newness, do cineasta Drake Doremus (Loucamente Apaixonados), acompanha Martin (o inglês Nicholas Hoult) e Gabi (a espanhola Laia Costa), pessoas pertencentes à geração Y (nascidos entre 1979 e 1995, segundo alguns sociólogos). Ambos vivem a intensidade de uma cultura cada vez mais digital e se conhecem após um match em um app de namoro (Tinder?). O filme é uma crônica moderna, mesmo que perca o ritmo ao retratar o relacionamento aberto. O uso da cor cinza dá um tom certeiro para enfatizar a casualidade das relações, que por trás delas, tem-se a vontade de experimentar coisas novas: esse é a principal informação sobre os nascidos na geração Y. ★ ★

O Espaço Entre Nós (The Space Between Us, 2017, de Peter Chelsom)

A narrativa de O Espaço Entre Nós parece escrito por John Green (autor de A Culpa é das Estrelas). É um romance teen misturado com ficção científica que tinha tudo para ser uma produção que cumpre seu objetivo de entreter, mas infelizmente, o longa falha em seus dois gêneros principais. Culpa de um roteiro totalmente embolado e sem sustentação em vários momentos. Mas tem seus pontos positivos: sua trilha sonora e a química entre Asa Butterfield e Britt Robertson. O elenco conta ainda com Gary Oldman e Carla Gugino, que só estão no filme como “suporte adulto” para os personagens jovens. ★ ★

Os Indicados ao Oscar 2018

Tiffany Haddish e Andy Serkis anunciaram os indicados ao Oscar na manhã de terça (25.01)

Logo no anúncio da AMPAS nas redes sociais, veríamos muitas novidades na divulgação dos indicados da edição de número noventa do Oscar. Andy Serkis e Tiffany Haddish, apresentadores da coletiva, tiveram a ajuda de Gal Gadot, Priyanka Chopra, Rosario Dawson, Salma Hayek, Michelle Rodriguez, Zoe Saldana, Molly Shannon, Rebel Wilson e Michelle Yeoh, que atuaram em esquetes que representam algumas categorias técnicas. É de se destacar a dinâmica que Serkis e Tiffany tiveram através de brincadeiras, especialmente da parte de Tiffany, coisa rara em eventos como esse.

A lista foi na medida certa para agradar muita gente, mas também lamentar algumas ausências (obviamente). A Forma da Água, filme do mexicano Guillermo Del Toro, mostra toda a sua força com 13 indicações, liderando assim a lista. Se não falha a memoria, a última fantasia com maior número de prêmios no Oscar foi O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, que venceu 11 Oscars em 2004. Já Três Anúncios Para Um Crime, grande vencedor em prêmios prévios, perde força na disputa com a ausência de Martin McDonagh entre os finalistas a melhor direção.

Greta Gerwig e Jordan Peele: novos tempos

Aliás, a categoria melhor direção é a mais especial do Oscar. Além de veteranos como Del Toro, Christopher Nolan e Paul Thomas Anderson, temos novatos como Jordan Peele (o quinto negro indicado a melhor direção) e Greta Gerwig (a quinta mulher indicada). Outros paradigmas foram quebrados nessas indicações: Rachel Morrison (Mudbound) é a primeira mulher a ser indicada na categoria melhor fotografia; Agnès Varda é a mulher mais velha a ser indicada com 89 anos de vida; Logan é o primeiro filme de super-herói a ser indicado ao Oscar de roteiro adaptado; Jordan Peele é o primeiro negro a ser indicado, no mesmo ano, a Direção, Roteiro e Filme; Mary J. Blige foi indicada em duas categorias distintas no mesmo ano e pelo mesmo filme (atriz coadjuvante e canção original por Mudbound) e Meryl Streep quebrou o próprio recorde de indicações com a sua 21ª indicação por The Post: A Guerra Secreta.

O que podemos tirar de lição desses paradigmas quebrados acima é de aproximação com as reivindicações atuais que já acusaram a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de não diversificar seus membros e indicados aos prêmios. E também seria uma prova de como o Oscar se comportaria em meio aos movimentos antiassédio como o Me Too e Time’s Up. Recado dado através da indicação de Christopher Plummer por Todo o Dinheiro do Mundo, que fez milagre ao entrar no jogo aos 45 minutos do segundo tempo após os escândalos envolvendo Kevin Spacey, interprete original de J. Paul Getty, serem revelados enquanto o filme estava em processo de pré-lançamento. E na esnobada em James Franco, então favorito ao Oscar segundo a crítica especializada, que viu suas chances de indicação e reputação colocadas à prova após algumas mulheres acusarem Franco de comportamento inapropriado com atrizes que faziam testes para suas produções. A manifestação ocorreu através das redes sociais no momento em que Franco fazia discurso ao vencer o Globo de Ouro de melhor ator cômico.

A cerimônia do Oscar terá apresentação de Jimmy Kimmel e acontece no dia 04 de março. Confira abaixo a lista de indicados:

MELHOR FILME

Corra!

O Destino de Uma Nação

Dunkirk

A Forma da Água

Lady Bird: É Hora de Voar

Me Chame Pelo Seu Nome

The Post: A Guerra Secreta

Trama Fantasma

Três Anúncios Para um Crime

MELHOR DIREÇÃO

Christopher Nolan (Dunkirk)

Guillermo del Toro (A Forma da Água)

Greta Gerwig (Lady Bird: É Hora de Voar)

Jordan Peele (Corra!)

Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma)

MELHOR ATRIZ

Frances McDormand (Três Anúncios Para Um Crime)

Margot Robbie (Eu, Tonya)

Meryl Streep (The Post: A Guerra Secreta)

Sally Hawkins (A Forma da Água)

Saoirse Ronan (Lady Bird: É Hora de Voar)

MELHOR ATOR

Daniel Day Lewis (Trama Fantasma)

Daniel Kaluuya (Corra!)

Denzel Washington (Roman J. Israel, Esq.)

Gary Oldman (O Destino de Uma Nação)

Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome)

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Allison Janney (Eu, Tonya)

Laurie Metcalf (Lady Bird: É Hora de Voar)

Lesley Manville (Trama Fantasma)

Mary J. Blige (Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi)

Octavia Spencer (A Forma da Água)

MELHOR ATOR COADJUVANTE

Christopher Plummer (Todo o Dinheiro do Mundo)

Richard Jenkins (A Forma da Água)

Sam Rockwell (Três Anúncios Para Um Crime)

Willem Dafoe (Projeto Flórida)

Woody Harrelson (Três Anúncios Para Um Crime)

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Corra!

Doentes de Amor

A Forma da Água

Lady Bird – É Hora de Voar

Três Anúncios Para Um Crime

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

O Artista do Desastre

A Grande Jogada

Logan

Me Chame Pelo Seu Nome

Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi

MELHOR ANIMAÇÃO

The Breadwinner

Com Amor, Van Gogh

O Poderoso Chefinho

O Touro Ferdinando

Viva: A Vida é Uma Festa

MELHOR FILME ESTRANGEIRO

Corpo e Alma (Hungria)

The Insult (Líbano)

Loveless (Rússia)

Uma Mulher Fantástica (Chile)

The Square – A Arte da Discórdia (Suécia)

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Abacus: Small Enough to Jail

Faces Places

Icarus

Last Men in Aleppo

Strong Island

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

“Mighty River” (Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi)

“Mystery of Love” (Me Chame Pelo Seu Nome)

“Remember Me” (Viva: A Vida é Uma Festa)

“Stand Up for Something” (Marshall)

“This is Me” (O Rei do Show)

MELHOR FOTOGRAFIA

Blade Runner 2049

O Destino de Uma Nação

Dunkirk

A Forma da Água

Mudbound – Lágrimas sobre o Mississipi

MELHOR FIGURINO

A Bela e a Fera

O Destino de Uma Nação

A Forma da Água

Trama Fantasma

Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha

MELHOR MAQUIAGEM & PENTEADOS

O Destino de Uma Nação

Extraordinário

Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha

MELHOR MIXAGEM DE SOM

Blade Runner 2049

Dunkirk

Em Ritmo de Fuga

A Forma da Água

Star Wars: Os Últimos Jedi

MELHOR EDIÇÃO DE SOM

Blade Runner 2049

Dunkirk

Em Ritmo de Fuga

A Forma da Água

Star Wars – Os Últimos Jedi

MELHORES EFEITOS VISUAIS

Blade Runner 2049

Guardiões da Galáxia 2

Kong: A Ilha da Caveira

Planeta dos Macacos: A Guerra

Star Wars: Os Últimos Jedi

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO

A Bela e a Fera

Blade Runner 2049

O Destino de Uma Nação

Dunkirk

A Forma da Água

MELHOR MONTAGEM

Dunkirk

Em Ritmo de Fuga

Eu, Tonya

A Forma da Água

Três Anúncios Para Um Crime

MELHOR TRILHA SONORA

Dunkirk

A Forma da Água

Trama Fantasma

Três Anúncios Para Um Crime

Star Wars: Os Últimos Jedi

MELHOR CURTA-METRAGEM

DeKalb Elementary

The Eleven O’Clock

My Nephew Emmett

The Silent Child

Watu Wote/All of Us

MELHOR CURTA-METRAGEM – DOCUMENTÁRIO

Edith+Eddie

Heaven is a Traffic Jam on the 405

Heroin(e)

Kayayo: The Living Shopping Baskets

Knife Skills

Traffic Stop

MELHOR CURTA-METRAGEM – ANIMAÇÃO

Dear Basketball

Garden Party

Lou

Negative Space

Revolting Rhymes

Os Vencedores do Globo de Ouro 2018

Oprah Winfrey, a mulher mais poderosa do entretenimento norte-americano, ao receber o prêmio Cecil B. DeMille.

Oprah Winfrey, a mulher mais poderosa do entretenimento norte-americano, ao receber o prêmio Cecil B. DeMille nesta edição do Globo de Ouro, disse palavras motivadoras não somente para os convidados da festa, mas também para mulheres e jovens desmotivados com os rumos de uma sociedade cada vez mais injusta. Nas palavras dela: “Quero que todas as garotas assistindo aqui, agora, saibam que um novo dia está no horizonte. E quando esse novo dia finalmente amanhecer, será por causa de muitas mulheres magníficas, muitas das quais estão aqui neste auditório esta noite e alguns homens fenomenais, lutando para garantir que se tornem os líderes que nos levam ao tempo em que ninguém nunca mais terá de dizer ‘Eu também’.”

A homenagem a Oprah, primeira mulher negra a receber a honraria foi um dos pontos fortes da cerimônia do 75° Globo de Ouro, a primeira grande premiação desde a onda de denuncias de assédio sexual que balançou a indústria hollywoodiana em 2017. E o tema não passou batido desde o anuncio dos indicados ao prêmio.

Como esperado, as mulheres apareceram trajando preto, simbolizando o luto pelas vitimas e também pela igualdade de gênero. Algumas atrizes como Meryl Streep, Emma Watson e Michelle Williams chegaram acompanhadas de ativistas pelos direitos femininos. A palavra-tendência no red carpet e também em alguns discursos foi o “Time’s Up” (o tempo acabou, em tradução livre), um manifesto que conta com o apoio de mais de 300 atrizes, diretoras e escritoras para defender vítimas de assédio.

O apresentador da vez Seth Meyers não perdeu tempo e colocou o assunto na pauta do seu monólogo. Citou alguns envolvidos em escândalos, como Harvey Weinstein e Kevin Spacey, e até comparou a história de A Forma da Água com uma trama de um filme de Woody Allen (outro nome envolvido em polêmicas), já que uma mulher inocente se apaixona por um monstro na história escrita e dirigida por Guillermo del Toro.

Ao longo da festa e dos prêmios distribuídos, a atenção estava mais voltada aos discursos dos vencedores e também por alfinetadas de alguns apresentadores de categorias. Natalie Portman soltou um “Aqui estão todos os indicados homens.” ao lado de um constrangido Ron Howard e Barbra Streisand protestou ao apresentar melhor filme drama: “Precisamos de mais mulheres na direção. Há tantos filmes incríveis por aí dirigidos por mulheres.” Streisand foi a única mulher a vencer os Golden Globes de melhor direção em 1984 pelo musical Yentl.

As equipes dos filmes vencedores do Globo de Ouro: Três Anúncios Para um Crime (acima) e Lady Bird – É Hora de Voar.

Sobre a corrida pelo Oscar, o Globo de Ouro consagrou duas produções favoritas para abocanhar indicações: Três Anúncios Para um Crime e Lady Bird – É Hora de Voar, melhor drama e comédia/musical, respectivamente. Entre os atores, Saoirse Ronan e Frances McDormand saíram na frente, enquanto Gary Oldman e Sam Rockwell ganharam sobrevida na disputa de melhor ator e ator coadjuvante (nos prêmios da crítica, os favoritos são Timothée Chalamet, de Me Chame Pelo Seu Nome e Willem Dafoe, de Projeto Flórida). Já atriz coadjuvante, ainda está indefinida: Allison Janney (Eu, Tonya e vencedora da categoria nos Globos) e Laurie Metcalf (Lady Bird – É Hora de Voar) ainda disputam os votos.

A consagração de histórias protagonizadas por mulheres acompanhou essa conjuntura do protesto através do preto. A sensação é que as mudanças são necessárias e imediatas. E que esse recado não fique somente na indústria audiovisual. A mensagem que resume essa edição do Globo de Ouro é a celebração do talento feminino e também de histórias cada vez mais próximas da realidade atual. E que essa causa esteja além das artes visuais.

Não é mesmo Nicole?

“É o poder feminino”

Os vencedores foram:

Cinema

Melhor filme drama: Três Anúncios para um Crime

Melhor filme comédia ou musical: Lady Bird: É Hora de Voar

Melhor diretor: Guillermo Del Toro – A Forma da Água

Melhor ator – drama: Gary Oldman – O Destino de uma Nação

Melhor ator – comédia ou musical: James Franco – O Artista do Desastre

Melhor atriz – drama: Frances McDormand – Três Anúncios para um Crime

Melhor atriz – comédia ou musical: Saoirse Ronan – Lady Bird: É Hora de Voar

Melhor ator coadjuvante: Sam Rockwell – Três Anúncios para um Crime

Melhor atriz coadjuvante: Allison Janney – Eu, Tonya

Melhor roteiro: Três Anúncios para um Crime

Melhor trilha sonora: A Forma da Água

Melhor canção original: ‘This is Me’ (O Rei do Show)

Melhor animação: Viva: A Vida É uma Festa

Melhor filme estrangeiro: Em Pedaços (Alemanha/França)

 

Televisão

Melhor série dramática: The Handmaid’s Tale

Melhor série cômica: The Marvelous Mrs. Maisel

Melhor minissérie ou filme para TV: Big Little Lies

Ator em série dramática: Sterling K. Brown – This is Us

Ator em série cômica: Aziz Ansari – Master of None

Atriz em série dramática: Elisabeth Moss – The Handmaid’s Tale

Atriz em série cômica ou musical: Rachel Brosnahan – The Marvelous Mrs. Maisel

Ator em minissérie ou filme para TV: Ewan McGregor – Fargo

Atriz em minissérie ou filme para TV: Nicole Kidman – Big Little Lies

Ator coadjuvante em TV: Alexander Skarsgard – Big Little Lies

Atriz coadjuvante em TV: Laura Dern – Big Little Lies

 

Cecil B. De Mille Award: Oprah Winfrey

Descobrindo: Florence Pugh

Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, obra de Nikolai Leskov publicada em 1865 não tem nenhuma relação com Macbeth de Shakespeare. Ela é uma anti-heroína, no sentido em que procura pela liberdade feminina em meio a um ambiente opressor para qualquer dama, mas que também apresenta uma personalidade fria e calculista para conseguir essa tão sonhada liberdade, sem se arrepender de nada.

A adaptação cinematográfica, apontada como o melhor filme britânico de 2017 trouxe duas revelações: o diretor William Oldroyd (oriundo do teatro) e Florence Pugh, que faz um trabalho fantástico em seu primeiro papel de destaque no cinema aos 21 anos de idade. Aliás, vamos dedicar este espaço para falar um pouco sobre a Florence.

Nascida e criada em Oxfordshire, na Inglaterra, Florence estreou nas telas no suspense The Falling em que dividiu as cenas com Maisie Williams (a Arya Stark da série Game of Thrones). Florence recebeu elogios da crítica britânica e uma indicação ao prêmio de revelação no Festival de Londres. Ao mesmo tempo em que participava da série Marcella e do filme para TV Studio City, ela conseguiu o papel de protagonista em Lady Macbeth.

O papel de Katherine está rendendo para Florence Pugh muitos elogios (ela está sendo chamada de “A nova Kate Winslet”), indicações a prêmios (ela já venceu o The Evening Standard Breakthrough of the Year Award) e também novos filmes para o currículo. Entre os próximos trabalhos da atriz britânica estão The Commuter, com Liam Neeson, Fighting with My Family, inspirado no documentário de mesmo nome sobre a lutadora de WWE Raya Knight e com Dwayne Johnson assumindo as funções de ator e produtor e Outlaw King, produção de época da Netflix.

Já na telinha, Florence será Cordelia na adaptação produzida pela Amazon e BBC do clássico de Shakespeare Rei Lear, com Anthony Hopkins e Emma Thompson e direção de Richard Eyre (Notas Sobre um Escândalo) e também será uma espiã na minissérie da AMC The Little Drummer Girl, produzido por Park Chan-wook (A Criada, Oldboy) e baseado no livro de John le Carré, A Garota do Tambor.

Vale apontar que todas essas produções mencionadas estão previstas para 2018. Então, ouviremos falar bastante de Florence Pugh, não é?

A história secreta da Mulher-Maravilha e a sua imagem empoderada

Capa da primeira revista Ms. As editoras esperavam fazer uma ponte entre o feminismo dos anos 1910 e o feminismo dos anos 1970 com a Mulher-Maravilha dos anos 1940.

Eu amo cinema desde pequena, mas poucas personagens me representavam tanto como nos tempos atuais. Via sempre a atriz Audrey Hepburn como um exemplo de personalidade: gentil, charmosa e empoderada, mesmo com todas as regras da época. No século XXI, a palavra “empoderada” está cada vez mais em evidência, não só pelas girls lutarem cada vez mais por espaço no entretenimento, mas também apresentar personagens femininas dentro de um contexto em que podemos nos identificar um pouco.

Atualmente, a TV é a casa de histórias com grande destaque em personagens femininas, como as vencedoras do Emmy 2017 The Handmaid’s Tale e Big Little Lies e até mesmo a nova roupagem de Star Trek, cuja protagonista é mulher e negra. Já nas telonas, temos figuras como Imperator Furiosa (Mad Max), Noiva (Kill Bill), Leia e Rey (Star Wars), Lisbeth Salander (Millennium Trilogy) e… Mulher-Maravilha.

A Mulher-Maravilha demorou 75 anos para ganhar uma produção cinematográfica própria. E ela é tão importante no universo dos quadrinhos quanto Batman e Superman! Em 2017, o filme solo da amazona quebrou vários paradigmas: foi o filme mais lucrativo do cinema até agora e sua diretora, a mais bem paga da história. E pensar que a Mulher-Maravilha ainda teve de mostrar seu valor e a história por trás da guerreira de Themyscira é fascinante, ao mesmo tempo, surpreendente.

Vamos lá para 1938: ano que surgiu o Superman. Os editores de revistas passaram a receber muitas críticas de pais e professores que acreditavam que os quadrinhos “deseducavam” as crianças. Um psicólogo e professor chamado William Moulton Marston discordava firmemente desse conceito. Além de ter sido o inventor do detector de mentiras (que foi inspiração para o Laço da Verdade), Marston era um “feminista”: ele acreditava que a sociedade seria um lugar melhor sob o domínio amoroso das mulheres.

Quando ele foi chamado para fazer consultoria para a DC Comics, Marston convenceu os editores da força e importância de uma super-heroina em meio a um mercado de personagens totalmente masculinos. A Wonder Womannasceu em um esboço de uma moça com sandálias gregas, braceletes e tiara de rainha. Marston sugeriu mudanças que geraram a ira das próprias mulheres: ele queria que a Mulher-Maravilha usasse shortinho e botas vermelhas de cano alto. Isso era um ultraje para as mulheres envolvidas na produção por ser provocante e bastante fetichista.

O curioso era que o professor Marston queria usar as HQs para implementar a igualdade de gênero, mesmo sendo de forma inusitada. Ele queria que a Mulher-Maravilha usasse braceletes para repelir as balas, dando assim mais poder a ela. Ele acreditava que esse tipo de ousadia poderia passar uma mensagem importante: que as novas gerações de mulheres se preparassem para um mundo novo e inspirá-las a autoconfiança em ocupações até então monopolizadas por homens.

William Moulton Marston (foto: Wiki DC Comics)

“Sinceramente, a Mulher-Maravilha é propaganda psicológica com vistas ao novo tipo de mulher que, na minha opinião, deveria dominar o mundo.” — William Moulton Marston

Mas a vida pessoal do professor Marston foi uma fonte de referências à personalidade de Diana Prince. Após a sua morte, em 1947, descobriu-se que ele era casado com duas mulheres ao mesmo tempo: Elizabeth Holloway e Olive Byrne, que inspiraram e colaboraram nas primeiras histórias da personagem. Mesmo assim, elas não tiveram autorização da DC Comics para ajudar nos roteiros.

Mulher-Maravilha em gerações distintas: Lynda Carter em 1977 na série de TV e Gal Gadot em 2017 no filme. (foto: montagem/Warner Bros./DC Comics)

Agora, chegando na DC Comics, a personalidade da Mulher-Maravilha era a de “bela, recatada e do lar”, ou seja, chegou a atuar como babá, conselheira sentimental e estava louca para casar com Steve Trevor. Anos à frente, entre 1975 e 1979, foi produzida uma série de TV com Lynda Carter (que antes foi Miss América) e participações em desenhos da Liga da Justiça; em 2012, a Amazon engavetou um projeto de seriado para Wonder Woman e ainda em 2017, a atriz israelense Gal Gadot aparecerá novamente na pele da heroína, dessa vez na versão live-action da Liga.

Conhecendo toda essa história por trás da lenda Mulher-Maravilha, vemos que toda essa comoção e sucesso que ela está tendo nos dias atuais são significativos, não só para abrir as portas para mais personagens femininas de destaque no entretenimento, mas como um modelo de humanidade em defesa da igualdade e do amor entre os seres humanos, numa sociedade que está cada vez mais intolerante com seu próximo.

“Eu acredito no amor. Apenas o amor vai verdadeiramente salvar o mundo.” (Diana Prince Rockwell Trevor ou simplesmente, Mulher-Maravilha)

Publicado originalmente no Medium em 27 Set 2017.