Ping Pong: 007 Contra Spectre, Um Alguém Apaixonado, Pássaro Branco na Nevasca e Quarteto Fantástico

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007 Contra Spectre (Spectre, 2015, de Sam Mendes)

Provavelmente, 007 Contra Spectre será o último filme de Daniel Craig como o agente James Bond e, infelizmente, não deixa um gosto marcante. Ao contrário de Casino Royale e Skyfall, Spectre é uma aventura cansativa, com temas que merecia um maior aprofundamento, como a questão dos grampos e a ligação do vilão vivido por Christoph Waltz com outros filmes. Mesmo que o roteiro de Spectre se esforce no objetivo de respeitar fãs de Bond, ao mesmo tempo em que tenta atrair a nova geração, mas que acaba sendo um circulo de informações que não chega a empolgar e com cenas de ação sem adrenalina, em que somente a ótima trilha sonora de Thomas Newman (não incluo a enfadonha canção ‘Writing’s On The Wall’) e a bela fotografia ficam na memória após os créditos.  ★★

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Um Alguém Apaixonado (Like Someone in Love, 2012, de Abbas Kiarostami)

Abbas Kiarostami, cineasta iraniano que faleceu neste mês de julho, disse em coletiva de imprensa após a exibição de Um Alguém Apaixonado no Festival de Cannes: seu filme não tem começo, nem fim. Essa é uma informação importante para o espectador embarcar na obra. A jovem Akiko é uma personagem solitária, sem coragem de encarar as pessoas ao seu redor por medo de descobrirem a sua verdadeira profissão. Já o professor aposentado Takashi, é sozinho e distante da família. Um Alguém Apaixonado é uma crônica sobre a solidão e Kiarostami dá uma aula de cinema com belas sequências, como a junção das luzes neon de Tóquio com mensagens de voz da avó distante da protagonista e até mesmo o trabalho de efeitos sonoros possui sua importância. É uma obra perceptiva, mas com muitos buracos para decifrar. ★ ★ ★

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Pássaro Branco na Nevasca (White Bird in a Blizzard, 2014, de Gregg Araki)

Baseado em livro da americana Laura Kasischke, Pássaro Branco na Nevasca já nasce curioso pelo título, que significaria alguém ganhando seus próprios voos, mas derrubada por uma forte tempestade de neve. As duas mulheres retratadas no filme, Kat e Eve (Shailene Woodley e Eva Green, respectivamente, ótimas em seus papeis), são dois pássaros brancos com dilemas distintos: enquanto uma está no auge da adolescência e conquista cada vez mais independência, a outra é uma mulher em crise de meia idade e que viu sua vida estagnar após se casar. A produção dirigida por Gregg Araki acerta em apresentar as mudanças em Kat através de flashbacks de como sua mãe Eve tratava as pessoas ao seu redor e também no toque de suspense através de sonhos surreais e comportamentos de alguns personagens, mesmo que apresente alguns clichês e uma narração em off de Shailene Woodley que pode incomodar em alguns momentos. ★ ★ ★

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Quarteto Fantástico (Fantastic Four, 2015, de Josh Trank)

Dos super-heróis que já ganharam adaptações cinematográficas nos últimos tempos, o Quarteto Fantástico é o que teve mais azar. Desde 1994 os personagens criados por Stan Lee e Jack Kirby tentam ao menos conquistar plateias, mas todas as produções são conhecidas pela adaptação tosca desse universo. A versão 2015 do Quarteto Fantástico supera os anteriores pelo enredo que perde bastante tempo em tentar contar a origem da equipe, que não demonstra nenhum tipo de sintonia entre eles, além de efeitos visuais que deixam certos momentos dignos de comédia. Outro ponto de pena é o desperdício de nomes bons envolvidos, como os atores Miles Teller, Jamie Bell e Michael B. Jordan, além do marcante Philip Glass, creditado como co-autor da trilha sonora. ★

Cake: Uma Razão Para Viver

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Na vida, nós passamos por altos e baixos. Alguns momentos de muita alegria e realização, outros nem tanto. Num mundo injusto e desanimador, nos esforçamos em procurar forças para tocar a vida e seguir em frente. Para Claire (Jennifer Aniston), protagonista de Cake: Uma Razão Para Viver, a batalha é ainda mais dura.

Claire é uma mulher dolorida tanto emocionalmente, quanto fisicamente. Um trágico acontecimento a perturba, fazendo com que ela ficasse deprimida e se viciasse em remédios. Ela frequenta a contragosto um centro de apoio para pessoas com dores crônicas. Ali, a pequena reunião teve como objetivo expressar sentimentos com relação ao suicídio de um dos membros do grupo, Nina (Anna Kendrick). Claire, então, resolve investigar sobre os motivos de Nina ter resolvido dar um ponto final a uma vida praticamente nova, já que ela deixou marido e um filho pequeno.

A obsessão de Claire com a história de Nina é só uma deixa para descobrirmos mais sobre as dores que Claire sente. Tanto que o ritmo lento, que pode cansar em certos momentos, é oportuno em mostrar pistas sobre o que cerca a vida da protagonista, como as caixas de brinquedos que a empregada doméstica mexicana Silvana (Adriana Barraza) guarda no armário de sua casa ou na participação relâmpago do ator William H. Macy.

Cake: Uma Razão Para Viver se sustenta na força das atuações de duas mulheres distintas: Jennifer Aniston, que aqui abdica da beleza e carisma característicos de seus personagens cômicos (como Rachel Green da série Friends) para encarar as dores de uma mulher ranzinza e sarcástica sem soar apelativo e Adriana Barraza, conhecida por Babel, tem uma comovente participação como a doméstica Silvana, dedicada e uma “mãe presente” para Claire.

Mesmo que Cake: Uma Razão Para Viver não seja marcante cinematograficamente, é uma boa obra de estudo humano, que no fim, deixa uma bela mensagem: seguir a vida é a melhor alternativa de amenizar as cicatrizes da alma, mesmo sendo a longo prazo.

★ ★ ★

Direção: Daniel Barnz

Roteiro: Patrick Tobin

Elenco: Jennifer Aniston, Adriana Barraza, Anna Kendrick, Sam Worthington, Mamie Gummer, Felicity Huffman, William H. Macy, Chris Messina, Lucy Punch, Britt Robertson. 

Literatura: Azul é a Cor Mais Quente

“Emma… você tinha me perguntado se eu acreditava no amor eterno. O amor é abstrato demais, e indiscernível. Ele depende de nós, de como nós o percebemos e vivemos. Se nós não existíssemos, ele não existiria. E nós somos tão inconstantes… Então, o amor não pode não o ser também.” (p. 157)

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Clémentine tem 15 anos, está no auge de sua adolescência: cursa o ensino médio, está começando a se descobrir, mas ela sente algum tipo de dificuldade de aceitar a si mesma. Seus pais são tradicionalíssimos, assim como alguns de seus colegas de classe. Já Emma é uma estudante de artes, cabeça aberta e de madeixas azuis. O destino acaba unindo-as ao cruzar a rua.

Azul é a Cor Mais Quente é contado sob o ponto de vista de Clémentine através de diários deixados por ela para Emma. Ao longo da leitura, conhecemos mais sobre o que deixa Clémentine insegura em assumir o que ela realmente é por causa do que as pessoas ao seu redor possam pensar sobre sua pessoa, já que o amor entre Clémentine e Emma nasce em meio a um ambiente tradicional, onde o homossexualismo ainda é um tabu.

Julie Maroh acerta pela junção de HQ com uma história literal e as cenas ousadas não estão ali com intenção de chamar atenção, mas são pontos fundamentais para que a tensa paixão entre as duas seja retratada com toda a honestidade possível. Personagens secundários como Sabine (namorada de Emma), Valentin (melhor amigo homossexual de Clémentine), os pais de Clémentine e alguns colegas da escola possuem sua importância como complemento ao amor proibido entre as protagonistas.

Azul é a Cor Mais Quente é por si só uma HQ diferente: trágica e bela, um Romeu e Julieta moderno. Deixando a sensação de que não importa sua orientação sexual, o amor verdadeiro é tudo na vida de duas pessoas, mesmo com uma sociedade cada vez mais intolerante e que necessita de uma reflexão imediata, principalmente em aceitar o próximo do jeito que ele é.

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Azul é a Cor Mais Quente (Le bleu est une couleur chaude, 2013)

Autor (a): Julie Maroh

Editora: Martins Fontes – selo Martins.

Boyhood: Da Infância à Juventude

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Um dia com muitas nuvens no céu, ao som de ‘Yellow’, do Coldplay. Vemos um menininho de olhos claros, sob a grama da escola apreciando aquela vista, imaginando alguma aventura, vendo o tempo passar. E o tempo é a maior virtude de Boyhood, filme de Richard Linklater que acompanha o crescimento e envelhecimento de seus personagens durante 12 anos.

O menininho de olhos claros chama-se Mason (Ellar Coltrane). Acompanhamos sua rotina, suas experiências, suas amizades, seu relacionamento com os pais divorciados, Mason Sr. (Ethan Hawke) e Olivia (Patricia Arquette) e sua irmã mais nova Samantha (interpretada pela filha do cineasta, Lorelei).

Em quase 2h40, acompanhamos partes importantes na vida de Mason, que precisa lidar com a separação dos pais, dos frustrados relacionamentos de sua mãe com homens abusivos e do esforço dela em criar os filhos sozinha, o pai espojado e ausente, os conflitos com sua irmã, que é um contraponto de Mason: enquanto ela era a aluna nota 10 – mas uma garotinha irritante –, o garoto não se entusiasmava em entregar as lições de casa e amava viver o momento como toda criança da sua idade gosta de fazer: brincar.

Boyhood é uma produção simples, não só em termos técnicos, mas também pela opção de narrar todos os eventos principais que podem acontecer com qualquer adolescente, como o primeiro cigarro, sua ida para faculdade, o primeiro amor. O bacana da narrativa do filme é testemunhar o amadurecimento de todos, especialmente do ator Ellar Coltrane, desde o corte de cabelo até a grossa voz ao completar 18 anos.

Boyhood é o retrato do coming-of-age, ou seja, da infância à juventude como resume o subtítulo, reforçando a lógica de que o tempo passa depressa para todos nós e é preciso aproveitar cada momento, antes que seja tarde.

★ ★ ★ ★

Direção: Richard Linklater

Roteiro: Richard Linklater

Elenco: Patricia Arquette, Ethan Hawke, Ellar Coltrane, Lorelei Linklater, Marco Perella, Charlie Sexton, Jenni Tooley, Richard Jones, Karen Jones, Zoe Graham.

Canção para Marion

songs-for-marionO cinema já apresentou muitas histórias de amor, óbvio. Casais que tiveram finais felizes ou trágicos fazem parte da lista de ingredientes para o gênero funcionar bem. Canção para Marion poderia entrar para essa estatística se não fosse pelo papel principal que a música exerce para a vida de alguém.

Arthur (Terence Stamp) é um homem antissocial e incapaz de uma comunicação cordial com seu filho. Ele tem um longevo casamento com Marion (Vanessa Redgrave), uma mulher com câncer terminal, mas o oposto dele: sempre positiva. Mesmo achando um esforço banal, Arthur leva Marion para ensaiar em um coral musical para idosos, liderado pela jovem Elizabeth (personagem de Gemma Arterton).

Quando Arthur precisa lidar com uma perda, ele acaba se isolando de tudo e todos, mas sempre aparece escondido escutando os ensaios do coral. É ali, que percebe a oportunidade de redimir seus sentimentos não só com seu filho, mas também com si mesmo, através da música, que deu um novo sentido para Marion superar o câncer.

Pela premissa, Canção para Marion surpreende ao ir à contramão ao usar a simpatia para conquistar o espectador, mesmo que o roteiro seja convencional e previsível, consegue ser lírico pelo bom aproveitamento das canções em pontos-chave, como as versões de ‘True Colours’ e ‘Goodnight My Angel’. Já os veteranos Vanessa Redgrave e Terence Stamp fazem o filme valer, não só pelo belo vocal que ambos entregam, mas também pela humanidade transmitida para o casal Arthur e Marion.

Canção para Marion é uma dramédia que vale a pena não só pela atuação da dupla principal, mas por ter uma mensagem positiva que deixa todos de sorriso largo no final: nada é impossível na vida, não importa a faixa etária.

Cotação: 7,5 /10  ★ ★ ★

Canção para Marion (Song for Marion/Unfinished Song, 2012)

Direção e roteiro: Paul Andrew Williams

Elenco: Terence Stamp, Vanessa Redgrave, Gemma Arterton, Christopher Eccleston, Anne Reid, Ram John Holder, Barry Martin, Taru Devani, Orla Hill.

Falando sobre os Golden Globes 2013…

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#CHUPAOSCAR! Essa frase dominou as redes sociais após Ben Affleck subir no palco dos Golden Globes para receber o prêmio de melhor diretor. Mesmo notando que alguns apostaram em sua vitória, a surpresa da vitória era muito grande, já que Affleck não recebeu indicação ao Oscar na categoria, assim como Kathyn Bigelow e Quentin Tarantino. Essa era a maior consequência da antecipação do anúncio dos indicados, que ocorreu na quinta-feira passada, além da AMPAS querer dar destaque a carinhas novas.

Sobre a festa em si. Sai Ricky Gervais e entra Tina Fey e Amy Poehler, mostrando a perfeita dinâmica entre elas (a amizade de longa data também ajudou), usando um pouco da acidez em frases como “Quando se trata de tortura, eu confio na mulher que passou três anos casada com James Cameron.”  ou “Quentin Tarantino: A estrela de meus pesadelos sexuais.” O único problema era de que quando Tina e Amy sumiam, a festa ficava maçante como todos os anos por juntar TV e Cinema.

Com a surpresa na vitória de Ben Affleck, seu filme Argo foi escolhido o melhor filme do ano pela Associação da Imprensa Estrangeira, repetindo o resultado dos Critics Choice Awards. Lincoln, de Steven Spielberg indicado a sete Globos de Ouro e com direito a apresentação de Bill Clinton, só recebeu o prêmio de melhor ator para Daniel Day-Lewis. Outras obviedades foram os prêmios a Jessica Chastain e Anne Hathaway.

Em comédia, enquanto muitos pensavam que Silver Linings Playbook dominaria a categoria como no Critics, a HFPA seguiu a cartilha em premiar um musical com Os Miseráveis, assim como o prêmio de Melhor Ator, que foi para Hugh Jackman. Já a categoria comédia/musical, que fora apresentado por Will Ferrell e Kristen Wiig entrou para os melhores momentos da noite, graças a sintonia de ambos, uma brincadeira com Hope Springs fez com que a câmera filmasse a animação de Tommy Lee Jones. Jennifer Lawrence ganhou a categoria, mas realmente a apresentação ficou no topo dos melhores momentos dos Golden Globes.

Já o prêmio Cecil B. De Mille foi concedido para Jodie Foster e mesmo que, por opinião pessoal, acho-a ainda nova para vencer um prêmio como esse, dado para os que mais contribuíram para a indústria cinematográfica, mas seu discurso, corajoso, apontando sobre a privacidade e sexualidade. Eis um momento que é melhor assistir do que dizer…

Para conferir a lista completa de vencedores dos Golden Globes, clique aqui

Tão Forte e Tão Perto

O impacto do 11 de setembro de 2001 nos cidadãos norte-americanos foi muito forte, não só na mudança de rotina e no medo de andar na rua, mas também no lado emocional das pessoas. A cidade de Nova York, especialmente, foi muito mais afetada por esse trauma, recuperando-se aos poucos e com certa cautela.

Em Tão Forte e Tão Perto, filme dirigido pelo inglês Stephen Daldry e baseado em um livro, retratado em primeira pessoa por Oskar Schell (Thomas Horn), um garotinho bem dotado e imaginativo que tinha uma relação bem forte com seu pai Thomas (papel de Tom Hanks), que montava idéias de expedição com o intuito de o filho perder a timidez e conversar com outras pessoas. Thomas criava seu filho não como somente uma criança, mas que ela adquirisse certo amadurecimento.

Mas Oskar é um menino com alguns tiques, mesmo com o dote investigativo herdado do pai, ele acaba irritando em alguns momentos, respondendo mal para pessoas que não tem uma relação próxima e até mesmo não poupando sua própria mãe, fazendo com que a relação deles fosse distante.

Depois do ‘dia ruim’ e em mexer nas coisas de seu pai falecido, Oskar encontra uma chave e pistas deixadas indicando que o tal objeto pertence a uma pessoa chamada Black. Ele começa uma aventura pelas ruas de Nova York com a ajuda de um senhor mudo chamado simplesmente de Inquilino (Max Von Sydow, indicado ao Oscar 2012).

Talvez, com a chegada do Inquilino que Tão Forte e Tão Perto engrena realmente, pela questão do personagem convencer o garoto a deixar de lado alguns medos como andar de metrô ou mesmo andar em cima de uma ponte. Faltou um pouco de profundidade na questão das atitudes de Oskar e o porquê de ele ser bem dotado (ele tem síndrome de Asperger).

O que faz Tão Forte e Tão Perto um filme imperdível é a forma como o diretor Daldry consegue trabalhar bem um roteiro que deixa o filme muitas vezes sem ritmo, mas que consegue ao mesmo tempo trabalhar bem com as emoções, com acompanhamento da melancólica trilha sonora de Alexandre Desplat, presente em cenas-chave. Já o elenco, destaque para Max Von Sydow, Sandra Bullock e Viola Davis, que acabam tornando seus personagens mais interessantes do que o próprio Oskar (não é culpa do novato Thomas Horn).

Mesmo com problemas de ritmo, o que torna Tão Forte e Tão Perto imperdível é a força do tema abordado e a expedição que Oskar se envolve e que sustenta o filme, fazendo com que ele aprenda a se comunicar não só com pessoas desconhecidas, com um trauma em comum, mas sim com ele próprio e que é preciso seguir em frente. E isso é possível.

Cotação: 7,5

Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud & Incredibly Close, 2011)
Direção: Stephen Daldry
Roteiro: Eric Roth, baseado em livro de Jonathan Safran Foer
Elenco: Thomas Horn, Tom Hanks, Sandra Bullock, Viola Davis, Jeffrey Wright, Max Von Sydow, Zoe Caldwell, Dennis Hearn, John Goodman, Stephen Henderson, Hazelle Goodman.